terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Espinafrada


Lembro-me que quando comecei a ler a Clarice Lispector poucas pessoas a conheciam. Assisti à enchente. Há assim fenómenos que acabam por banalizar os escritores. Foi assim com o Pessoa, é agora assim com o Lobo Antunes, será assim com tantos outros.
Gente que nunca se interessou por certas realidades da Literatura passa, numa lógica mimética, a adoptá-los como brasão demonstrativo da sua linhagem literária. Trazem-nos para os seus espaço fingindo familiaridade. O copy paste ajuda muito nesta imposturice.
Senti-me pois reflectido num artigo que vem publicado na revista Época, assinado por Luís Antônio Giron, intitulado «Clarice virou pastel». Cito um excerto, só para se ter uma ideia: «Se alguém pensa que pode mergulhar naquele húmus de sangue, alma e digressões e sair de lá como entrou, como se lesse um romance espírita psicografado, então perdeu a viagem. A maioria dos leitores é assim, em especial esses leitores de salão, hoje com o cérebro capaz de apreender 140 caracteres, contando os espaços».
E se não bastar, mais este e ficamos por aqui: «É por essas e tantas outras que vale a pena continuar vivendo por longo tempo. Sempre uma novidade aparece, em especial aos mortos que não se defendem dos sucessivos revisionismos por que passam. A curiosidade matou o gato, mas me anima a viver. Eu gostaria de estar lúcido daqui a 30 anos só ver Clarice ser convertida numa espécie de Nossa Senhora do Brasil de uma nova religião. Ou ser espinafrada».

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