Eu ignorante me confesso. Devo ao Duarte Fonseca esta menção: «Como chegar àquilo a que as palavras mal podem dar expressão? O enigma que (des)norteia a obra de Clarice Lispector (1920-1977) foi levantado pelo professor e crítico português Carlos Mendes de Sousa ao mergulhar nas profundezas da escritora. Sousa é autor de "Clarice Lispector - Figuras da Escrita", que saiu em 2000, com uma tiragem de 500 exemplares, pela editora da Universidade do Minho, em Portugal, tornou-se objeto de culto entre claricianos e só agora chega ao Brasil, editado pelo IMS (Instituto Moreira Salles)». A notícia está aqui. Fui tentar ver o conteúdo, aqui e sobre a o autor aqui. E calo-me, de contrição, por ignorar tanto o que é nosso.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Manuscrito inédito de Clarice Lispector
Graças à gentileza de Graça Ribeiro, prezada amiga literária de além-mar chegam-se este texto de Pedro Corrêa do Lago, que transcrevo na íntegra:
«Fora os papéis guardados no arquivo de sua família, os manuscritos de Clarice Lispector são muito raros em coleções privadas. Com a fama cada vez maior da escritora e o número crescente de admiradores no exterior existe inclusive uma grande procura por seus documentos de parte de universidades, e Instituições, e colecionadores estrangeiros.
A página manuscrita aqui reproduzida contém uma frase belíssima que não chegou à versão publicada de A Hora da Estrela e que menciona Macabéa, talvez uma de suas personagens mais famosas. São apenas três frases: “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.
«Fora os papéis guardados no arquivo de sua família, os manuscritos de Clarice Lispector são muito raros em coleções privadas. Com a fama cada vez maior da escritora e o número crescente de admiradores no exterior existe inclusive uma grande procura por seus documentos de parte de universidades, e Instituições, e colecionadores estrangeiros.
A página manuscrita aqui reproduzida contém uma frase belíssima que não chegou à versão publicada de A Hora da Estrela e que menciona Macabéa, talvez uma de suas personagens mais famosas. São apenas três frases: “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.
No final de sua vida Clarice andava anotando coisas em pedacinhos de papel, cheques, guardanapos e até mesmo maços de cigarros. Uma de suas secretárias vivia guardando os pedaços no envelope, e nesta página manuscrita aparece uma menção em outra letra para identificar o fragmento – provavelmente na caligrafia de sua enfermeira/assistente Siléa Marchi: “(Macabéa quando vem para o Rio)”. Clarice sofrera muito com as sequelas do incêndio que quase lhe custara a mão com que escrevia. Nos últimos anos estava bastante fraca, e o ferimento na mão também explica a letra pouco legível.
Sua editora principal era sua grande amiga Olga Borelli, que ajudou Clarice a organizar suas últimas grandes obras-primas como Água Viva, A Hora da Estrela, assim como o póstumo Sopro de Vida. A recente biografia de Clarice por Benjamin Moser cita Olga Borelli comentando o método editorial da grande escritora:
Sua editora principal era sua grande amiga Olga Borelli, que ajudou Clarice a organizar suas últimas grandes obras-primas como Água Viva, A Hora da Estrela, assim como o póstumo Sopro de Vida. A recente biografia de Clarice por Benjamin Moser cita Olga Borelli comentando o método editorial da grande escritora:
“Respirar junto, é respirar junto ... Porque existe uma lógica na vida, nos acontecimentos, como existe num livro. Eles se sucedem, é tão fatal que seja assim. Porque se eu pegasse um fragmento e quisesse colocar mais adiante, eu não encontraria onde colocar. É como um quebra-cabeça. Eu pegava os fragmentos todos e ia juntando, guardava tudo num envelope. Era um pedaço de cheque, era um papel, um guardanapo […] Eu tenho algumas coisas em casa ainda, dela, e até com cheiro de batom dela. Ela limpava o lábio e depois punha na bolsa […] de repente, ela escrevia uma anotação. Depois de coletar todos estes fragmentos, comecei a perceber, comecei a numerar. Então, não é difícil estruturar Clarice, ou é infinitamente difícil, a não ser que você comungue com ela e já tenha o hábito da leitura.”
Esse manuscrito inédito de grande interesse para a obra de Clarice me foi comunicado por seu atual detentor».
* Pedro Corrêa do Lago, nascido no Rio de Janeiro em 1958, é mestre em economia pela PUC - Rio. Interessa-se por manuscritos desde os 13 anos e formou a maior coleção brasileira particular de documentos históricos e literários.
Esse manuscrito inédito de grande interesse para a obra de Clarice me foi comunicado por seu atual detentor».
* Pedro Corrêa do Lago, nascido no Rio de Janeiro em 1958, é mestre em economia pela PUC - Rio. Interessa-se por manuscritos desde os 13 anos e formou a maior coleção brasileira particular de documentos históricos e literários.
domingo, 1 de janeiro de 2012
A tocante fraqueza
É mais um dos seus pequenos livros. Grande livro. São contos. Interessa-me menos o que conta mas o modo de contar. Como é tradicional nos livros de contos, o título é o nome de um dos contos que arquiva. Não o li a esse conto. Não sei em nome de que superstição faço quase sempre assim, guardando para o fim, como quem quer terminar a refeição com a mais saborosa lembrança. Li ao calhar, sublinhei os momentos magníficos como quando «entortando as bocas, na aflição da asfixia, os peixinhos minúsculos lutavam desesperadamente pelas suas minúsculas vidas», a história da despedida, «o penoso esforço de desatar os laços dos humanos comprometimentos tantas vezes alicerçados sobre intenções mal compreendidas», o difícil adeus àquele «que, não fosse por imposição, e do mesmo modo se lhe teria devotado, tão tocante é a fraqueza dos que em nós se apoiam, e a piedade que nos inspiram, como desnorteante é o remorso de quando nos furtamos e, em consequência, ferimos e deserdamos».
Elisa Lispector escreveu A Despedida. O livro Inventário, publicado em 1977, pela Rocco, no Rio de Janeiro, guardou-o para quem, sentindo-o, se reveja no já vivido, «num magoado adeus para nunca mais».
domingo, 18 de dezembro de 2011
Retratos Antigos
Será lançado em Janeiro de 2012. Chamar-se-á Retratos Antigos. Coordenado por Nádia Gotlib. «De acordo com Nádia, a obra tem como características marcantes o modo como a história da família – de trabalhadores rurais e comerciantes – é contada por Elisa, que volta a seu tempo de infância para reconstruir o passado com o filtro da maturidade. «O texto é movido por intensa e respeitosa comoção da narradora diante dos sofrimentos que levaram o pai, Pedro, a deixar a Ucrânia em direção ao Brasil», salienta Nádia Gotlib, que foi professora de literatura brasileira na USP.
Ao contrário de Clarice, a escrita de Elisa é claramente autobiográfica, mas uma biografia não da primeira pessoa mas da família. Sintoma de solidão, ela que nunca casou nem filhos teve e viveu uma vida discreta, funcionária do Ministério do Trabalho. A qualidade da sua escrita surpreendeu muitos. Hoje é a hora do resgaste. [mais, aqui]
Clarice na cabeceira
Cito da notícia que encontra no jornal A Folha, de São Paulo e que pode ser lida aqui:
Reunião de vinte textos escolhidos por convidados afeitos à obra de Clarice Lispector, este livro apresenta uma leitura selecionada de narrativas curtas publicadas entre 1962 e 1973, na revista "Senhor" e no "Jornal do Brasil", e posteriormente agrupadas nos livros "A Descoberta do Mundo" e "Para Não Esquecer".
Reunião de vinte textos escolhidos por convidados afeitos à obra de Clarice Lispector, este livro apresenta uma leitura selecionada de narrativas curtas publicadas entre 1962 e 1973, na revista "Senhor" e no "Jornal do Brasil", e posteriormente agrupadas nos livros "A Descoberta do Mundo" e "Para Não Esquecer".
Abordando temas tão diversos quanto as memórias da infância, a vida, a morte, o amor, o ato de escrever, o silêncio, a maternidade e a indignação, as crônicas ganham sabor especial quando apresentadas por amigos e admiradores de Clarice, que compartilham o impacto da escritora e de sua obra em suas vidas, como Eduardo Portella, Ferreira Gullar, Marília Pêra, Maria Bonomi e Naum Alves de Souza, entre outros.
Com organização de Teresa Montero, a obra é a oportunidade de conhecer "perfeitos momentos da literatura brasileira moderna, perfeitos momentos da vida nas palavras, perfeitos momentos", como descreve Caetano Veloso ao falar sobre o sentimento que a leitura de Clarice provoca».
Com organização de Teresa Montero, a obra é a oportunidade de conhecer "perfeitos momentos da literatura brasileira moderna, perfeitos momentos da vida nas palavras, perfeitos momentos", como descreve Caetano Veloso ao falar sobre o sentimento que a leitura de Clarice provoca».
Ilustríssima Elisa
A Ilustríssima do jornal A Folha, de São Paulo publicou um artigo, assinado por Raquel Cozer dedicado a Elisa Lispector. Pode ser encontrado aqui. Foi desse artigo que retirei a foto que orna este blog: [da esquerda para a direita] Tania, Elisa e Clarice.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Além da Fronteira, o exílio
Acabei ontem a leitura de um pequeno grande livro chamado "Além da Fronteira". É o livro de estreia de Elisa [de origem Leia] Lispector, cuja extraordinária qualidade literária ficou ofuscada pela glória de sua irmã Clarice. Livros são hoje difíceis de encontrar, salvo no "sebo", o que corresponde aos nossos alfarrabistas. Mas que a amizade do Ernane Catroli reuniu para que eu pudesse ler. Livros de que pouquíssimos falam, pelo paradoxo profundo mas sem fama de quem os escreveu.
"Além da Fronteira", editado em 1945 por José Olympio, já pelo título se pressente é um livro construído sobre a memória da sua condição de emigrante ucraniana, vinda do lugar das privações, miúda ainda, a família em demanda da subsistência.
Mas pressente-se nele já a opressão do exílio nesse Brasil, terra de futuro [para retomar o que foi o título de um controverso livro de Stefan Zweig, que tantos dissabores lhe causou e que no Brasil encontrou, afinal, a terra do seu suicídio] e «exílio» é a palavra que surge, quase a findar a obra, quando Sérgio, personagem central da narrativa, inicia a sua viagem final e sente na boca «a amarga sensação de exílio». E "Exílio" é título do seu livro seguinte, já de cunho mais intensamente auto-biográfico. E é nomenclatura no contexto da escrita de de Albert Camus, e título também do seu magnífico "O Exílio e o Reino", cuja escrita me ocorreu tanta vez ao ler a escrita desta discreta porque esquecida autora.
O livro é um excerto da vida de Sérgio, cruzado com excertos da vida de todos os outros, incidentais, precários, como é a vida, vista em permanente «extravasamento da perplexidade», escrita nómada por quem se pressente revista constantemente na pergunta «por que você não volta para a sua terra, se não consegue deitar raízes por aqui?».
Traçado em breves capítulos, há no desenrolar da narrativa um crescendo que, imperceptível, se apossa do leitor e torna a leitura difícil, pois em cada página, por vezes em cada parágrafo, se adensam os sentimentos como um corpo que se encharcasse por uma chuvada fria e dolorosa. Por isso levei semanas a ler, interpoladamente, estas 102 páginas, impressas em oitavo.
A grandiosidade surge no quase final, Sérgio a apartar-se do navio, a que já não voltará mais, o navio da viagem esperançosa e a ficar-se, só ante os homens mas presente, enfim, ante o ventre matricial da Terra, recebido e a entregar-se. São duas páginas em que o enraizamento se vai dando pelo entorpecimento primeiro do conhecimento, a perda sucessiva da sensação, a assimilação, enfim, do corpo e da mente «a essa espécie de paz interior e profunda», até que, deitado, os olhos visando os céus, os braços em cruz, «o seu dorso era o dorso da terra, e o espírito bom da terra o havia penetrado até ao fim», um fim que é o surgir de uma «vida com um sentido próprio, sem noção de tempo, local ou circunstâncias», porque «integrando-se numa ordem que o conciliava com a vida, com os homens, com Deus».
Como dizer-se que é a sua morte quando é o momento apenas da sua vida eterna, o ciclo do que existe a renovar-se, como a de Paulo no sanatório, e a sua noite, noite simbólica de inferno e desolação, «a noite, ora transformada numa nau fantasmagórica, parece oscilar no tempo (...)» em que «o navio do tempo parece avançar e retroceder entre o presente e o passado, até confundir tudo numa alucinação de pesadelo».
Sempre o navio e sua viagem, como o navio dos mortos, rumo de emigrados, «gente amontoada sobre gente, e o odor de carne, de suor, de humanidade».
«O amanhã é o partir do momento em que o esperamos». Assim se cumpre a circunferência da vida e com ela o círculo e na totalidade do mesmo a esfera. Eis a geometria sagrada deste livro que é uma oração murmurada à existência.
«É preciso ter coragem para ser feliz». Assim para Dolores, para Helena, para a tia Nelly, para quantos são a alma deste corpo em livro, para quem o lê e nele se irmana, a comunhão dos seres.
«É preciso ter coragem para ser feliz». Assim para Dolores, para Helena, para a tia Nelly, para quantos são a alma deste corpo em livro, para quem o lê e nele se irmana, a comunhão dos seres.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O Muro de Pedras
Tinha guardado, tão gulosamente como miúdo que olha contristado para o fundo do prato do seu doce predilecto e estica o tempo em que terminará o prazer de ter estado contente, as últimas folhas do livro "O Muro de Pedras" de Elisa Lispector, irmã de Clarice.
E já escrevi aqui do espanto, do sublime que foi a leitura, de um livro que é uma busca de amor que contém, afinal, a busca de Deus.
Usando o pseudónimo de "Congonhas", de sabor caricato para a nossa pituitária fonética, foi a primeira vencedora do prémio Lins do Rego.
Talvez, nesta noite pungente, me faça companhia a frase «fazendo-se sofrer, ela se dava razão contra quem lhe infligia sofrimento» e se isto fosse um poema de amor e não uma nota breve de uma leitura extensa eu te diria que a nenhum mundo consentiria existência se dele houvesse sol ou lua que não fosse a escaldante alegria e a nocturna brisa do riso.
Retirei-a do livro, a frase, e a memória já vaga do que fui lendo, ficou, como a descrição de um lugar em que não sabemos dizer como era mas dizemos tudo dizendo «e é tão bom».
Agora sim, pronto para todos os seus livros, que venham do sebo, assim os consiga, guardarei este na estante, amavelmente com a promessa «não me nunca esquecerei de ti» porque não se esquece de quem nos faz feliz.
domingo, 7 de agosto de 2011
O ser incontido
Tenho-a ainda não totalmente lida a biografia que dela escreveu Benjamim Moser, e a foto-biografia e tantos dos seus livros quase todos e soube agora que havia as cartas para as irmãs e de uma das irmãs comecei a ler em êxtase os livros de Elisa, e nesta manhã surgiu esta homenagem que é ela presente aqui em pessoa e, afinal, mas onde está tudo quanto lhe sobeja e a define, esse mundo sem limites no infinito na indefinição, incontida e total?
A potência da perversidade
Só quem, não tendo com que chegar a eles, nunca viveu a ânsia e o desejo de os ter, não entende. Só quem não viveu a vida como se ela fosse a menina chupando "balas" doces precisando de que soframos pelos livros que há, «as olheiras se cavando sobre os olhos espantados», o mundo por ler.
A narrativa é de uma beleza que dói: «Eu própria me transformei na esperança da alegria». Em livro.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Für Elisa
Extasiei-me e ainda hoje perdura essa torrente de sentimentos ao ler Clarice Lispector, antes de ela ter sido "descoberta" até à náusea por quantos se limitam a dela coleccionar frases quando o que há na sua escrita são extensas e densas narrativas de uma insólita alma errante por um estranho mundo em que, afinal, nos reconhecemos singularmente. Porque é fácil gostar de uma frase sua, já que é difícil ler todo um livro, Clarice é servida como um "shot" numa noite de estúrdia: efeito imediato e alucinante. No resto ninguém a quer; o que nos legou de profundo e de longínquo poucos a acompanham. Segue, morta, mulher solitária no mundo dos sem companhia.
Sucede que eu não conhecia sua irmã, Elisa Lispector. Tive nas mãos um primeiro livro que me limitei a folhear, sabendo que é a história, escrita em 1948, da migração dos Lispector da Ucrânia para a o Brasil, romance auto-biográfico intitulado "No Exílio". Mas foi agora, na cave do alfarrabista Chaminé da Mota que a encontrei de novo, agora no seu livro "O Muro de Pedras", que mereceu o prestigiado prémio José Lins do Rego. Ali estava, amarelecido e escondido na edição da Livraria José Olympio Editora, de 1963.
Se a escrita de Clarice vincava a alma esta não produz menor efeito. Depois de ler é preciso ir «endireitando os sentimentos» como ela diz da sua personagem, «um infinito desejo de trégua e de cessação».
É uma escrita que aleija, como «num pensamento difícil que aos poucos se ia esgaçarçando a esmo, até que a quietude e o cansaço a venciam».
domingo, 10 de abril de 2011
A epifania e o seu eco
Não importa quanto tempo levamos a ler um livro nem se interrompemos a leitura, como quem passeia e se senta em cima de uma pedra ou decide adormecer num momento da viagem. Não importa se não lemos todos os livros que há para ler, nem se somos ignorantes em relação aos "incontornáveis" como dizem alguns ditadores do gosto e tiranos da erudição obrigatória.
Nunca me dei mal com a ignorância própria, apenas com a estupidez alheia.
Retomei ontem a leitura da biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamim Moser, a menina ucraniana judia pobre que neste momento está em Nápoles é mulher de diplomata e vai no seu segundo livro.
Ao sucesso do primeiro livro sucedeu o azar do segundo. A escrita confundiu-se, o nome de cada palavra passou a ser a palavra em si e o seu símbolo, a vida a busca para a palavra ignota, em oração permanente para que a epifania ecoe no indizível.
A foto foi tirada quando de uma visita ao Vesúvio. Sem que ela o saiba está nela o símbolo de um casamento que se arruinaria. Olhando com desconsolada tristeza para o que ficou é a melhor expressão do mundo que nunca poderia ter sido. Daí que a sua escrita seja a de um amor desesperado.
domingo, 11 de julho de 2010
Perto do Coração Selvagem
Reduzi-lo-ia severamente se o apodasse de uma história sobre o casamento. É talvez uma história sobre a impossibilidade do casamento. De qualquer casamento. Sobre a solidão no acasalamento porque enamorada «agora ela era tristemente uma mulher feliz».
No momento em que o escrevia Clarice Lispector terminava a sua formatura em Direito. Aproximava-se o casamento que faria dela por uns anos a senhora de Gurgel Valente um diplomata de modesto nível, «pequenino pequenino» ante tal gigante humano a que no entanto se aprisionara.
É o relato de uma angústia pressentida, como se a de um medo pavoroso ante um outro casamento depois de esgotados todos os casamentos, dor exposta indecentemente na frase «Mas você não acha que tudo está quase terminado entre nós? - E quase desde o princípio, aventurou» Otávio a Joana. Porque neste pequeno trecho está, sem pudor e no entanto escondida numa selva de sons e cores, a sua biografia matrimonial.
Perto do Coração Selvagem é um extraordinário livro, que anuncia uma extraordinária escritora. Há nele uma densidade de sentimentos, uma torrente de sensações, um modo oblíquo de ver que tornam a estranha forma de dizer o que de incomum uma tal escrita nos traz.
A dez páginas do fim hesito sobre o que dizer para trazer ao mundo das palavras uma pálida imagem que seja de quanto ali há, como se nada pudesse ser criado mas apenas revelado e o milagre da revelação se me tivesse tornado impossível.
No decurso da leitura, por ser má a qualidade da edição, abriram-se as folhas como um naipe de cartas que espalhasse da obra o seu teor aleatoriamente, fazendo do acaso a sorte da narrativa. Surgiu aí o símbolo como modo de dizer.
Benjamim Moser, cuja biografia de Clarice acompanho ao mesmo tempo que estou a ler a sua obra - porque a vida da escritora é afinal o que escreveu - acentua quanto há de Spinoza neste livro, colocado o pensamento deste judeu português como tema do estudo que Otávio redige inacabadamente ao mesmo tempo que planeia um outro vil de tão prático sobre um tema de Direito Civil. Sim, é uma leitura interessante, porque «Deus pousa numa árvore pipilando», e porque num lamento se percebe «que exigissem dele artigos sobre Spinoza, mas que não fosse obrigado a advogar, a olhar e a lidar com aquelas pessoas afrontosamente humanas, desfilando, expondo-se sem vergonha» e o leitor tem pena sem que ele a mereça. No momento em que suspendi a leitura, surpreendo Otávio espojado-se velhaco na ideia que bom «seria bom livrar-se dela, fazer o plano do livro de direito civil. Já se via caminhando entre suas coisas com intimidade».
Cheia de flores que se transformam em rosas, a força selvagem do ar, submergindo na profundezas da entrega, Joana partirá, Deus apiedado, dissolvendo-a na Natureza que é, afinal, um seu modo divino de ser.
Um livro destes é um excerto de vida que se arranca ao coração. A um indómito coração selvagem.
domingo, 20 de junho de 2010
Perto do Coração Selvagem
Comecei a lê-lo. Primeiro livro de Clarice. Publicado em 1943. Escrito nos tempos da Faculdade de Direito, antes do casamento com Gurgel Valente, se essas datas interessam na vida e obra de uma escritora. Redigiu-o entre Março e Novembro de 1942, concluindo-o num mês, ao isolar-se na Pensão Marquês de Abrantes, no Rio de Janeiro, cidade onde vivia então, trabalhando como jornalista.
É um livro poderoso, invulgar, fortíssimo, em que as sensações se transmutam em sentimentos, carregando os nervos em cada folha. Mas está a ser um livro de inteligência rara, de inesperados modos de ver, densos pensamentos, invulgares, tocantes. Um livro que anuncia, com o fulgor de um raio, uma tempestade solar no modo de viver a vida e na própria vida.
Na biografia que escreveu, Benjamim Moser sugere que o livro seja lido pensando que a autora, judia, leu Espinosa e o aprofundou.
Estou a ler. Cedo à tentação de escrever, retesados que tenho os nervos, incapaz o cérebro, o coração enfartado de comoção. Mais tarde, quando o entardecer frio trouxer razão e noite e com isso paz. Voltarei.
domingo, 30 de maio de 2010
Até já, pois
Ainda consegui começá-la, já a madrugada começava, a biografia que Benjamim Moser escreveu sobre Clarice Lispector. Tinha-o trazido do Rio de Janeiro, volume belíssimo, cuidado. O livro surgiu embrulhado em polémica. Impossível não ser assim, controversa a biografada. Acordei poucas horas depois, para continuar a ler. Até já, pois.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Curiosa forma
Veja-se esta curiosa forma de dizer: «Clarice Lispector faleceu aos 57 anos em 1977. Ao contrário do que acontece com muitos escritores no Brasil, seus livros nunca foram enterrados junto com ela e seguem por aí, fascinando leitores brasileiros e estrangeiros». É um artigo que encontrei aqui, no Jornal do Comércio de Porto Alegre, escrito por Jaime Cimenti.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Espinafrada
Lembro-me que quando comecei a ler a Clarice Lispector poucas pessoas a conheciam. Assisti à enchente. Há assim fenómenos que acabam por banalizar os escritores. Foi assim com o Pessoa, é agora assim com o Lobo Antunes, será assim com tantos outros.
Gente que nunca se interessou por certas realidades da Literatura passa, numa lógica mimética, a adoptá-los como brasão demonstrativo da sua linhagem literária. Trazem-nos para os seus espaço fingindo familiaridade. O copy paste ajuda muito nesta imposturice.
Gente que nunca se interessou por certas realidades da Literatura passa, numa lógica mimética, a adoptá-los como brasão demonstrativo da sua linhagem literária. Trazem-nos para os seus espaço fingindo familiaridade. O copy paste ajuda muito nesta imposturice.
Senti-me pois reflectido num artigo que vem publicado na revista Época, assinado por Luís Antônio Giron, intitulado «Clarice virou pastel». Cito um excerto, só para se ter uma ideia: «Se alguém pensa que pode mergulhar naquele húmus de sangue, alma e digressões e sair de lá como entrou, como se lesse um romance espírita psicografado, então perdeu a viagem. A maioria dos leitores é assim, em especial esses leitores de salão, hoje com o cérebro capaz de apreender 140 caracteres, contando os espaços».
E se não bastar, mais este e ficamos por aqui: «É por essas e tantas outras que vale a pena continuar vivendo por longo tempo. Sempre uma novidade aparece, em especial aos mortos que não se defendem dos sucessivos revisionismos por que passam. A curiosidade matou o gato, mas me anima a viver. Eu gostaria de estar lúcido daqui a 30 anos só ver Clarice ser convertida numa espécie de Nossa Senhora do Brasil de uma nova religião. Ou ser espinafrada».
sábado, 28 de novembro de 2009
Os ganchos afiados
Continuam as recensões ao livro biográfico sobre Clarice Lispector escrito por Benjamim Moser. A última é a de Thiago Corrêa no Diário de Pernambuco, de onde retiro, com a devida vénia (como se diz respeitando as boas maneiras) a foto que é de Cláudia Andujar.
«Outro diferencial da biografia é a descoberta da sífilis contraída pela mãe de Clarice, após um estupro sofrido na época dos pogroms, ataques de roubo e violência dirigidos aos judeus no Leste Europeu entre as década de 1910 e 1920. "O avô de Clarice foi assassinado, mas a morte era muito melhor do que passar dez anos morrendo numa cama como aconteceu com a mãe. Isso foi uma experiência muito particular para Clarice"», revela o biógrafo, citado pelo articulista, que é autor desta tocante análise: «Ler Clarice Lispector é cair numa armadilha repleta de ganchos afiados, prontos para se enganchar em seu coração».
«Outro diferencial da biografia é a descoberta da sífilis contraída pela mãe de Clarice, após um estupro sofrido na época dos pogroms, ataques de roubo e violência dirigidos aos judeus no Leste Europeu entre as década de 1910 e 1920. "O avô de Clarice foi assassinado, mas a morte era muito melhor do que passar dez anos morrendo numa cama como aconteceu com a mãe. Isso foi uma experiência muito particular para Clarice"», revela o biógrafo, citado pelo articulista, que é autor desta tocante análise: «Ler Clarice Lispector é cair numa armadilha repleta de ganchos afiados, prontos para se enganchar em seu coração».
sábado, 14 de novembro de 2009
Um jeitão desengonçado
Gregory Rabassa, o melhor dos tradutores do espanhol e do português, ficou embasbacado quando encontrou Clarice Lispector que "parecia Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Wolf". Notável modo de exprimir, a propósito da biografia de Clarice Lispector, Why this World, escrita por Benjamin, ou Ben Moser, que «tem 33 anos, alto, simpático, jeitão desengonçado. Fala feito um condenado em seis, sete, não sei quantas línguas, entre elas o inglês (materna), o francês, tão bem quanto o inglês, alemão, holandês, italiano, português, espanhol, hebraico». Tudo o mais que se pode dizer com um requebro da forma e um sentimento na alma, leia-se aqui.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A Maçã no Escuro
É numa «atmosfera de entranhas», como «num sonho difícil cheio de moscas» que, no incomum porque extraordinário livro A Maçã no Escuro, Clarice Lispector faz nascer o arrebatador sentimento do amor. Surge na luz azulada e pútrida de um curral, como o «rebentar de uma artéria e um sangue insuspeito jorrra», «como se seu corpo por si mesmo não bastasse», um bafo pestilento mas simultâneamente adocicado viciante pois que vicioso.
Heroína na coragem de descrever ousadamente as erupções da alma e as surpresas do corpo, Clarice consegue arrastar-nos para o íntimo e fulgurante momento em que Vitória «estranhou-se então com o modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem». Esse o homem.
É um dos livros que deixei incompleto, ainda na página 160, pois a leitura esgota e é preciso sossegar os sentidos e refrear as sensações.
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