Veja-se esta curiosa forma de dizer: «Clarice Lispector faleceu aos 57 anos em 1977. Ao contrário do que acontece com muitos escritores no Brasil, seus livros nunca foram enterrados junto com ela e seguem por aí, fascinando leitores brasileiros e estrangeiros». É um artigo que encontrei aqui, no Jornal do Comércio de Porto Alegre, escrito por Jaime Cimenti.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Espinafrada
Lembro-me que quando comecei a ler a Clarice Lispector poucas pessoas a conheciam. Assisti à enchente. Há assim fenómenos que acabam por banalizar os escritores. Foi assim com o Pessoa, é agora assim com o Lobo Antunes, será assim com tantos outros.
Gente que nunca se interessou por certas realidades da Literatura passa, numa lógica mimética, a adoptá-los como brasão demonstrativo da sua linhagem literária. Trazem-nos para os seus espaço fingindo familiaridade. O copy paste ajuda muito nesta imposturice.
Gente que nunca se interessou por certas realidades da Literatura passa, numa lógica mimética, a adoptá-los como brasão demonstrativo da sua linhagem literária. Trazem-nos para os seus espaço fingindo familiaridade. O copy paste ajuda muito nesta imposturice.
Senti-me pois reflectido num artigo que vem publicado na revista Época, assinado por Luís Antônio Giron, intitulado «Clarice virou pastel». Cito um excerto, só para se ter uma ideia: «Se alguém pensa que pode mergulhar naquele húmus de sangue, alma e digressões e sair de lá como entrou, como se lesse um romance espírita psicografado, então perdeu a viagem. A maioria dos leitores é assim, em especial esses leitores de salão, hoje com o cérebro capaz de apreender 140 caracteres, contando os espaços».
E se não bastar, mais este e ficamos por aqui: «É por essas e tantas outras que vale a pena continuar vivendo por longo tempo. Sempre uma novidade aparece, em especial aos mortos que não se defendem dos sucessivos revisionismos por que passam. A curiosidade matou o gato, mas me anima a viver. Eu gostaria de estar lúcido daqui a 30 anos só ver Clarice ser convertida numa espécie de Nossa Senhora do Brasil de uma nova religião. Ou ser espinafrada».
sábado, 28 de novembro de 2009
Os ganchos afiados
Continuam as recensões ao livro biográfico sobre Clarice Lispector escrito por Benjamim Moser. A última é a de Thiago Corrêa no Diário de Pernambuco, de onde retiro, com a devida vénia (como se diz respeitando as boas maneiras) a foto que é de Cláudia Andujar.
«Outro diferencial da biografia é a descoberta da sífilis contraída pela mãe de Clarice, após um estupro sofrido na época dos pogroms, ataques de roubo e violência dirigidos aos judeus no Leste Europeu entre as década de 1910 e 1920. "O avô de Clarice foi assassinado, mas a morte era muito melhor do que passar dez anos morrendo numa cama como aconteceu com a mãe. Isso foi uma experiência muito particular para Clarice"», revela o biógrafo, citado pelo articulista, que é autor desta tocante análise: «Ler Clarice Lispector é cair numa armadilha repleta de ganchos afiados, prontos para se enganchar em seu coração».
«Outro diferencial da biografia é a descoberta da sífilis contraída pela mãe de Clarice, após um estupro sofrido na época dos pogroms, ataques de roubo e violência dirigidos aos judeus no Leste Europeu entre as década de 1910 e 1920. "O avô de Clarice foi assassinado, mas a morte era muito melhor do que passar dez anos morrendo numa cama como aconteceu com a mãe. Isso foi uma experiência muito particular para Clarice"», revela o biógrafo, citado pelo articulista, que é autor desta tocante análise: «Ler Clarice Lispector é cair numa armadilha repleta de ganchos afiados, prontos para se enganchar em seu coração».
sábado, 14 de novembro de 2009
Um jeitão desengonçado
Gregory Rabassa, o melhor dos tradutores do espanhol e do português, ficou embasbacado quando encontrou Clarice Lispector que "parecia Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Wolf". Notável modo de exprimir, a propósito da biografia de Clarice Lispector, Why this World, escrita por Benjamin, ou Ben Moser, que «tem 33 anos, alto, simpático, jeitão desengonçado. Fala feito um condenado em seis, sete, não sei quantas línguas, entre elas o inglês (materna), o francês, tão bem quanto o inglês, alemão, holandês, italiano, português, espanhol, hebraico». Tudo o mais que se pode dizer com um requebro da forma e um sentimento na alma, leia-se aqui.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A Maçã no Escuro
É numa «atmosfera de entranhas», como «num sonho difícil cheio de moscas» que, no incomum porque extraordinário livro A Maçã no Escuro, Clarice Lispector faz nascer o arrebatador sentimento do amor. Surge na luz azulada e pútrida de um curral, como o «rebentar de uma artéria e um sangue insuspeito jorrra», «como se seu corpo por si mesmo não bastasse», um bafo pestilento mas simultâneamente adocicado viciante pois que vicioso.
Heroína na coragem de descrever ousadamente as erupções da alma e as surpresas do corpo, Clarice consegue arrastar-nos para o íntimo e fulgurante momento em que Vitória «estranhou-se então com o modo arrebatado de se reconhecer. Acabara de decidir ser, não um outro, mas esse homem». Esse o homem.
É um dos livros que deixei incompleto, ainda na página 160, pois a leitura esgota e é preciso sossegar os sentidos e refrear as sensações.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Uma molécula diz que sim...
«Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou». Começa assim A Hora de Estrela.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Rato de biblioteca
Estar consigo mesmo, no reduto do próprio, isolado do resto, suportando a intimidade. Ser rato engaiolado, pior se de biblioteca. O efeito é a devastação da alma. Já o sabia por ouvir dizer e por ter sentido. Hoje aprendi como é: «Escritor é uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea de si, já que o contacto íntimo consigo próprio é por força prolongado demais».
sábado, 16 de maio de 2009
Notável manhã
Há momentos de leitura que são como se de súbito ante um espelho nos reconhecêssemos. Sucedeu isso esta manhã com uma entrevista de Clarice Lispector, concedida no dia 20 de Outubro de 1976 no Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro. A conversa foi conduzida pelos escritores Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti. O enredo vem no livro Outros Escritos, colectânea que Teresa Montero e Lícia Manzo organizaram para a Rocco. Entrevista de vida, errática e incerta, esta toca num momento da juventude em que estudou Direito, estudou «advocacia» como ela se exprime. A pergunta surgiu então inevitável: «Mas você nunca advogou?», pergunta Affonso. A resposta foi não. «Aliás, Sa Thiago Dantas dizia que quem vai ser advogado por causa de Direito Penal não é advogado: é literato». Notável manhã!
Perdidos e achados
Chegou ontem. Ele e outros. Oferta gentil. Dia péssimo de preocupações e de ocupações. Só de noite tive tempo de o folhear. Editado pelo Centro Cultural Banco do Brasil. É-lhe dedicado esse pequeno álbum, editado em 2008. Em colaboração com a Petrobras é o que fica como memória de uma exposição em sua homenagem. Outra ocorreu em 1992.Antecipa a fotobiografia. Sempre desejei vê-lo. Agora tenho-o. Fico grato a quem o deu. São fotos, excertos, documentos, pequenos momentos em tumultos a lembrar quem é. Não se pode dizer quem foi. Chamo em mim o desejo de alegria pela vontade de ler. Está sol na rua. «Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos». Obrigado Ernani. Muito obrigado.
domingo, 10 de maio de 2009
A culpa
Foram só mais uma folhas. Poucas. O livro tem cerca de trezentas e cinquenta páginas, ainda vou, vagaroso, na página setenta e três. Não consigo ir mais depressa. Cada palavra sufoca. Um pouco antes tinha surgido Ermelinda, a prima de Vitória: «tendo transferido para Ermelinda o desgosto que sentia contra a própria estupidez, sentiu-se sem culpa nenhuma». Ainda é A Maçã no Escuro. Não tenho culpa. Leio devagar.domingo, 3 de maio de 2009
O caminho da cólera
Impossível não ler muito devagar, não ficar ofegante pelo respirar tumultuoso dos sentidos que esta escrita desperta. «Não era ódio - era uma amor ao contrário, e ironia, como se ambos desprezassem a mesma coisa», sente o homem que é Martim e a mulher de quem não sei ainda o nome. «E porque aquele homem parecia não querer nunca mais usar o pensamento nem para combater outro pensamento - foi fisicamente que de súbito se rebelou em cólera, agora que enfim aprendera o caminho da cólera». Foram mais umas folhas apenas, esta amanhã, não páginas abstractas de uma literatura feita de letras, mas pedaços arrancados ao imaculado desejo de ler. Ao regressar, o jardim das roseiras olhou-me, recatadamente intrigado, murmurando um olá.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sem nem ao menos saber
Lê-se na imprensa que a editora Rocco vai relançar a obra completa de Clarice Lispector. Fui ver ao site da editora. É verdade. Li o pequeno livro na edição da Relógio de Água. Na altura já me tinha apaixonado por ela, pela sua escrita, por quem conhece «adjectivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de acção».A história, contada por um homem, é a de Macabéa (página 47), a de seu Olímpico de Jesus (página 49), operário metalúrgico, que «tinha uma grandeza demoníaca: sua força sangrava», a de Glória (página 64), que «tinha mãe, pai e comida quente em hora certa». Carlota surge (página 77) e magnífica, «enxundiosa, pintava a boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas fases oleosas duas rodelas de ruge brilhoso».
«Vocezinha tem medo de palavras benzinho? - Tenho, sim senhora»; «Você sabe,meu amor, que cheiro de homem é bom? Faz bem à saúde. Você já sentiu cheiro de homem?» - Não senhora».
«Se você conseguir uma mulher vai ver como é gostoso, entre mulheres o carinho muito mais fino. Você tem chance de ter uma mulher? - Não senhora».
É um livro para nunca perder, livro que «crepúsculo que é hora de ninguém». A vida de Macabéa, «que só sabia mesmo chover» muda ao longo de cada folha. «Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que uma pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber».
domingo, 19 de abril de 2009
Um bicho esquisito

É uma escrita estranha. É muito raro ver um tal modo de dizer. Parece que a língua portuguesa lhe foi ensinada. Que a viu de fora como a um bicho esquisito. Usa-a esquisitamente. «Ele não contara com a veemente mudez do sol. Sempre experimentara o sol com vozes». É A Maçã no Escuro. Já o título é estranho. Normalmente há um momento em que se percebe a razão de ser do título de um livro. Ainda não cheguei lá. Comecei a lê-lo há pouco tempo. Em pequenos goles. Não por ser denso, mas porque densifica.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Meio século de Finlândia

Há quem aprenda uma língua para ser capaz de ler um livro, há quem a aprenda por se ter apaixonado por quem o escreveu. É um pouco isto tudo que se sente ante esta frase: «Lispector rakentaa romaaninsa päähenkilön Joanan, keskiluokkaisen nuoren naisen, sisäisten äänten tarkkaamiselle ja kuuntelemiselle». Claro que o finlandês é difícil sei eu, esta tarde de sábado, depois de ter estado aqui, e me lembrar que quando tinha dezanove anos me correspondera com uma adolescente daquele país, chamada Pirkko Heikkinen. Vivia no campo, levava horas de autocarro para chegar à escola. Em vez de Finland escrevia Suomi. Visitei-a esta tarde, de memória, quarenta anos depois.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Essa desconhecida
Julio Lerner é autor da última entrevista dada à TV por Clarice Lispector antes de morrer. Publica-se esta semana um livro seu a que deu o nome Clarice Lispector, essa Desconhecida. Julio Lerner morreu aos 67 anos, em 30 de julho de 2007 e deixou o livro de homenagem a Clarice prestes a ser editado. Agora é a vez de Lerner ser homenageado, não só como um escritor, mas antes, como um importante personagem de cultura brasileira.
terça-feira, 3 de junho de 2008
A vida íntima de Laura
Chamava-se Laura e Clarice dedicou-lhe um pequeno livro, meigo de palavras e de sentimentos. O livro intitula-se «A Vida Íntima de Laura». Vê-se que é escrito por quem gosta de Laura. Porque diz que «Laura é bastante burra», pois «pensa que pensa», mas «em geral não pensa em coisíssinha alguma», mas no fim, a história do livro não mata Laura, apesar de Laura de «tão burra que não sabe que só se morre uma vez, ela pensa que todos os dias a gente morre uma vez».Chegou-me hoje, por amizade carinhosa, a história de Laura, que tinha «cara de ontem», que é como eu, uma «cara mal dormida».
Esta noite, mais uma noite de madrugada e de acordar cedo, porque às seis estou no comboio, vim aqui dizer que Laura é uma galinha. E mais: como «a vida íntima» são «coisas que não se dizem a qualquer pessoa», peço a quem me ler que guarde para si: morreu a Zeferina, em vez da Laura, comida «com molho pardo». Era prima em quarto grau de Laura, ruiva também.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
O amargo sabor
Chegou ontem, graças à gentileza dos meus amigos Abel e Pedro, a fotobiografia de Clarice Lispector. Encontrei aqui, neste blog da Leonor Cordeiro, o modo de tentar sugerir como é, mas é preciso tê-lo nas mãos, esse explêndido livro, sentir a dolorosa beleza daquela vida, para compreender, sentindo, como tudo se esvai em direção ao tempo, para que o espaço nos devolva o renascer da vida. Chegou ontem, enfim, e a impossibilidade de lê-lo de imediato, pesa, como se a própria Clarice tivesse aparecido à porta de nossa casa, para a recebermos com um «agora não posso», e com isso o amargo sabor do para nunca mais.segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Mais do que se pode
Clarice! Ainda consegui ler mais umas cartas que escreveu em 1945, ligada pelo cordão umbilical da mala postal aos poucos amigos no Brasil, perdida numa Europa em guerra. Em Maio estava em Roma e escrevia a Elisa Lispector e Tania Kaufmann, aflita: «por favor me escrevam, gostem de mim... Porque eu amo vocês + do que se pode».
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