Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Rato de biblioteca
Estar consigo mesmo, no reduto do próprio, isolado do resto, suportando a intimidade. Ser rato engaiolado, pior se de biblioteca. O efeito é a devastação da alma. Já o sabia por ouvir dizer e por ter sentido. Hoje aprendi como é: «Escritor é uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea de si, já que o contacto íntimo consigo próprio é por força prolongado demais».
Sábado, 16 de Maio de 2009
Notável manhã
Há momentos de leitura que são como se de súbito ante um espelho nos reconhecêssemos. Sucedeu isso esta manhã com uma entrevista de Clarice Lispector, concedida no dia 20 de Outubro de 1976 no Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro. A conversa foi conduzida pelos escritores Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti. O enredo vem no livro Outros Escritos, colectânea que Teresa Montero e Lícia Manzo organizaram para a Rocco. Entrevista de vida, errática e incerta, esta toca num momento da juventude em que estudou Direito, estudou «advocacia» como ela se exprime. A pergunta surgiu então inevitável: «Mas você nunca advogou?», pergunta Affonso. A resposta foi não. «Aliás, Sa Thiago Dantas dizia que quem vai ser advogado por causa de Direito Penal não é advogado: é literato». Notável manhã!
Perdidos e achados
Chegou ontem. Ele e outros. Oferta gentil. Dia péssimo de preocupações e de ocupações. Só de noite tive tempo de o folhear. Editado pelo Centro Cultural Banco do Brasil. É-lhe dedicado esse pequeno álbum, editado em 2008. Em colaboração com a Petrobras é o que fica como memória de uma exposição em sua homenagem. Outra ocorreu em 1992.Antecipa a fotobiografia. Sempre desejei vê-lo. Agora tenho-o. Fico grato a quem o deu. São fotos, excertos, documentos, pequenos momentos em tumultos a lembrar quem é. Não se pode dizer quem foi. Chamo em mim o desejo de alegria pela vontade de ler. Está sol na rua. «Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos». Obrigado Ernani. Muito obrigado.
Domingo, 10 de Maio de 2009
A culpa
Foram só mais uma folhas. Poucas. O livro tem cerca de trezentas e cinquenta páginas, ainda vou, vagaroso, na página setenta e três. Não consigo ir mais depressa. Cada palavra sufoca. Um pouco antes tinha surgido Ermelinda, a prima de Vitória: «tendo transferido para Ermelinda o desgosto que sentia contra a própria estupidez, sentiu-se sem culpa nenhuma». Ainda é A Maçã no Escuro. Não tenho culpa. Leio devagar.Domingo, 3 de Maio de 2009
O caminho da cólera
Impossível não ler muito devagar, não ficar ofegante pelo respirar tumultuoso dos sentidos que esta escrita desperta. «Não era ódio - era uma amor ao contrário, e ironia, como se ambos desprezassem a mesma coisa», sente o homem que é Martim e a mulher de quem não sei ainda o nome. «E porque aquele homem parecia não querer nunca mais usar o pensamento nem para combater outro pensamento - foi fisicamente que de súbito se rebelou em cólera, agora que enfim aprendera o caminho da cólera». Foram mais umas folhas apenas, esta amanhã, não páginas abstractas de uma literatura feita de letras, mas pedaços arrancados ao imaculado desejo de ler. Ao regressar, o jardim das roseiras olhou-me, recatadamente intrigado, murmurando um olá.
Terça-feira, 21 de Abril de 2009
Sem nem ao menos saber
Lê-se na imprensa que a editora Rocco vai relançar a obra completa de Clarice Lispector. Fui ver ao site da editora. É verdade. Li o pequeno livro na edição da Relógio de Água. Na altura já me tinha apaixonado por ela, pela sua escrita, por quem conhece «adjectivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de acção».A história, contada por um homem, é a de Macabéa (página 47), a de seu Olímpico de Jesus (página 49), operário metalúrgico, que «tinha uma grandeza demoníaca: sua força sangrava», a de Glória (página 64), que «tinha mãe, pai e comida quente em hora certa». Carlota surge (página 77) e magnífica, «enxundiosa, pintava a boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas fases oleosas duas rodelas de ruge brilhoso».
«Vocezinha tem medo de palavras benzinho? - Tenho, sim senhora»; «Você sabe,meu amor, que cheiro de homem é bom? Faz bem à saúde. Você já sentiu cheiro de homem?» - Não senhora».
«Se você conseguir uma mulher vai ver como é gostoso, entre mulheres o carinho muito mais fino. Você tem chance de ter uma mulher? - Não senhora».
É um livro para nunca perder, livro que «crepúsculo que é hora de ninguém». A vida de Macabéa, «que só sabia mesmo chover» muda ao longo de cada folha. «Mas quem sabe se ela não estaria precisando de morrer? Pois há momentos em que uma pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber».
Domingo, 19 de Abril de 2009
Um bicho esquisito

É uma escrita estranha. É muito raro ver um tal modo de dizer. Parece que a língua portuguesa lhe foi ensinada. Que a viu de fora como a um bicho esquisito. Usa-a esquisitamente. «Ele não contara com a veemente mudez do sol. Sempre experimentara o sol com vozes». É A Maçã no Escuro. Já o título é estranho. Normalmente há um momento em que se percebe a razão de ser do título de um livro. Ainda não cheguei lá. Comecei a lê-lo há pouco tempo. Em pequenos goles. Não por ser denso, mas porque densifica.
Sábado, 17 de Janeiro de 2009
Meio século de Finlândia

Há quem aprenda uma língua para ser capaz de ler um livro, há quem a aprenda por se ter apaixonado por quem o escreveu. É um pouco isto tudo que se sente ante esta frase: «Lispector rakentaa romaaninsa päähenkilön Joanan, keskiluokkaisen nuoren naisen, sisäisten äänten tarkkaamiselle ja kuuntelemiselle». Claro que o finlandês é difícil sei eu, esta tarde de sábado, depois de ter estado aqui, e me lembrar que quando tinha dezanove anos me correspondera com uma adolescente daquele país, chamada Pirkko Heikkinen. Vivia no campo, levava horas de autocarro para chegar à escola. Em vez de Finland escrevia Suomi. Visitei-a esta tarde, de memória, quarenta anos depois.
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009
Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
Essa desconhecida
Julio Lerner é autor da última entrevista dada à TV por Clarice Lispector antes de morrer. Publica-se esta semana um livro seu a que deu o nome Clarice Lispector, essa Desconhecida. Julio Lerner morreu aos 67 anos, em 30 de julho de 2007 e deixou o livro de homenagem a Clarice prestes a ser editado. Agora é a vez de Lerner ser homenageado, não só como um escritor, mas antes, como um importante personagem de cultura brasileira.
Terça-feira, 3 de Junho de 2008
A vida íntima de Laura
Chamava-se Laura e Clarice dedicou-lhe um pequeno livro, meigo de palavras e de sentimentos. O livro intitula-se «A Vida Íntima de Laura». Vê-se que é escrito por quem gosta de Laura. Porque diz que «Laura é bastante burra», pois «pensa que pensa», mas «em geral não pensa em coisíssinha alguma», mas no fim, a história do livro não mata Laura, apesar de Laura de «tão burra que não sabe que só se morre uma vez, ela pensa que todos os dias a gente morre uma vez».Chegou-me hoje, por amizade carinhosa, a história de Laura, que tinha «cara de ontem», que é como eu, uma «cara mal dormida».
Esta noite, mais uma noite de madrugada e de acordar cedo, porque às seis estou no comboio, vim aqui dizer que Laura é uma galinha. E mais: como «a vida íntima» são «coisas que não se dizem a qualquer pessoa», peço a quem me ler que guarde para si: morreu a Zeferina, em vez da Laura, comida «com molho pardo». Era prima em quarto grau de Laura, ruiva também.
Quarta-feira, 23 de Abril de 2008
O amargo sabor
Chegou ontem, graças à gentileza dos meus amigos Abel e Pedro, a fotobiografia de Clarice Lispector. Encontrei aqui, neste blog da Leonor Cordeiro, o modo de tentar sugerir como é, mas é preciso tê-lo nas mãos, esse explêndido livro, sentir a dolorosa beleza daquela vida, para compreender, sentindo, como tudo se esvai em direção ao tempo, para que o espaço nos devolva o renascer da vida. Chegou ontem, enfim, e a impossibilidade de lê-lo de imediato, pesa, como se a própria Clarice tivesse aparecido à porta de nossa casa, para a recebermos com um «agora não posso», e com isso o amargo sabor do para nunca mais.Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008
Mais do que se pode
Clarice! Ainda consegui ler mais umas cartas que escreveu em 1945, ligada pelo cordão umbilical da mala postal aos poucos amigos no Brasil, perdida numa Europa em guerra. Em Maio estava em Roma e escrevia a Elisa Lispector e Tania Kaufmann, aflita: «por favor me escrevam, gostem de mim... Porque eu amo vocês + do que se pode».
Domingo, 9 de Dezembro de 2007
O dia da eternidade
Na véspera de completar cinquenta e sete anos de idade, morreu-nos. Talvez este verbo não se possa conjugar assim, pronominalmente. Foi no dia 9 de Dezembro, o dia de hoje. Morreu-nos, sim, definitivamente. Talvez este verbo não admita a forma transitória. «A eternidade é o estado das coisas neste momento». Ao lê-la, revivemo-la, constantemente.Domingo, 2 de Dezembro de 2007
A amante humilde
É uma oração a Deus humano, demasiado humano, causa de todos os males, fonte do Supremo Bem, esperança numa outra vida. É uma oração de quem peca pelo pensamento, ao cometer o pecado de pensar. É o conhecimento iluminante, o amor unitivo, o êxtase da alma, a alegria dos sentidos. «Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como respostao amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar».
Domingo, 25 de Novembro de 2007
O ar constrangido

Sobre ela escreveu Affonso Romano de Santtana, no livro A Sedução das Palavras, capítulo Sete anos sem Clarice, e que uma alma amiga me enviou:
«Gostava de mistérios, fazia cursos de esoterismo e tornou-se cliente da minha cartomante de confiança, no Méier. Mas foi na Colombia que participou de um congresso de bruxarias, representando o Brasil. Seu sortilégio foi ler o sofisticadíssimo conto O Ovo. E ante o pasmo da audiência, solenemente, concluiu:- Não entenderam? Nem eu».
Obrigado Júlia pela lembrança. Há no ovo o princípio de todos os primórdios, a lógica de todas as probabilidades. Leio, hoje, domingo de manhã, sem tempo quase para viver: «O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido».
Sábado, 24 de Novembro de 2007
Um pouco tarde!
A Elizabet, generosa, procurou um link onde li uma pequena biografia da Clarice Lispector e nela que em 1960, separada de seu marido, diminuída por razões financeiras «começa a assinar a coluna Só para Mulheres, como ghost writer da atriz Ilka Soares no Diário da Noite». O marido de Ilka, o também actor Anselmo Duarte, que se vê aliás na foto, diria a propósito de si próprio: «quem criticava meus filmes, depois da Vera Cruz, eram alguns moleques do Rio de Janeiro, que invejavam os prêmios conquistados por mim internacionalmente, e como não sabiam nada de cinema voltaram para as suas antigas profissões, me deixaram em paz e, os que não morreram, estão me pedindo perdão. Um pouco tarde!» Diz-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Ignora-se que há casos em que por detrás dessa grande mulher está, escondida e anónima, uma extraordinária mulher. Isto pensado este sábado por um moleque de Lisboa que, sendo o fantasma da sua própria escrita, vai ter de voltar segunda-feira à sua antiga profissão.
Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
Desabafo
1947 Berna - Suiça: «Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma». ClariceDomingo, 4 de Novembro de 2007
Para não esquecer
Dias completamente parados, a ler sem critério o que não chego a entender, a folhear sem utilidade livros lidos e de que me esqueço, volto a um livro seu tão denso que se tornou interminável, cada palavra como se rebentasse o coração. «É com algum deslumbramento, e prévio cansaço, que sucumbo ao que vou experimentar viver», diz ela. Talvez amanhã já seja segunda-feira.
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