segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Desabafo

1947 Berna - Suiça: «Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma». Clarice

4 comentários:

Cleopatra disse...

Excelente!!!

Camila disse...

Clarice é apaixonante. Deixo pra ti um pedaço dela que gosto muito:

"Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro -
tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam.
Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas.
Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer
a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite?..."

Clarice Lispector
In:"A descoberta do mundo"

Voltarei. Beijo!

isabel victor disse...

"Tôdas as minhas horas
são feitas de jaspe negro
Minhas ânsias tôdas talhadas
num mármore que não há
Não é alegria nem dor
esta dor com que me alegro
E a minha bondade inversa
não é nem boa nem má..."

de ... Fernando Pessoa

(Isto não é um comentário. Isto não é resposta. Isto não tem nada a ver com este post. Isto é só isto ! É ... fernando Pessoa. E é fascinante.)

Bj* iv

elizabet disse...

meu Amigo descobri este link que me levou aos textos de Clarice:
http://www.fabiorocha.com.br/lispector.htm
bjs e saudades
EF