domingo, 11 de julho de 2010

Perto do Coração Selvagem

Reduzi-lo-ia severamente se o apodasse de uma história sobre o casamento. É talvez uma história sobre a impossibilidade do casamento. De qualquer casamento. Sobre a solidão no acasalamento porque enamorada «agora ela era tristemente uma mulher feliz».
No momento em que o escrevia Clarice Lispector terminava a sua formatura em Direito. Aproximava-se o casamento que faria dela por uns anos a senhora de Gurgel Valente um diplomata de modesto nível, «pequenino pequenino» ante tal gigante humano a que no entanto se aprisionara.
É o relato de uma angústia pressentida, como se a de um medo pavoroso ante um outro casamento depois de esgotados todos os casamentos, dor exposta indecentemente na frase «Mas você não acha que tudo está quase terminado entre nós? - E quase desde o princípio, aventurou» Otávio a Joana. Porque neste pequeno trecho está, sem pudor e no entanto escondida numa selva de sons e cores, a sua biografia matrimonial.
Perto do Coração Selvagem é um extraordinário livro, que anuncia uma extraordinária escritora. Há nele uma densidade de sentimentos, uma torrente de sensações, um modo oblíquo de ver que tornam a estranha forma de dizer o que de incomum uma tal escrita nos traz.
A dez páginas do fim hesito sobre o que dizer para trazer ao mundo das palavras uma pálida imagem que seja de quanto ali há, como se nada pudesse ser criado mas apenas revelado e o milagre da revelação se me tivesse tornado  impossível.
No decurso da leitura, por ser má a qualidade da edição, abriram-se as folhas como um naipe de cartas que espalhasse da obra o seu teor aleatoriamente, fazendo do acaso a sorte da narrativa. Surgiu aí o símbolo como modo de dizer.
Benjamim Moser, cuja biografia de Clarice acompanho ao mesmo tempo que estou a ler a sua obra - porque a vida da escritora é afinal o que escreveu - acentua quanto há de Spinoza neste livro, colocado o pensamento deste judeu português como tema do estudo que Otávio redige inacabadamente ao mesmo tempo que planeia um outro vil de tão prático sobre um tema de Direito Civil. Sim, é uma leitura interessante, porque «Deus pousa numa árvore pipilando», e porque num lamento se percebe «que exigissem dele artigos sobre Spinoza, mas que não fosse obrigado a advogar, a olhar e a lidar com aquelas pessoas afrontosamente humanas, desfilando, expondo-se sem vergonha» e o leitor tem pena sem que ele a mereça. No momento em que suspendi a leitura, surpreendo Otávio espojado-se velhaco na ideia que bom «seria bom livrar-se dela, fazer o plano do livro de direito civil. Já se via caminhando entre suas coisas com intimidade».
Cheia de flores que se transformam em rosas, a força selvagem do ar, submergindo na profundezas da entrega, Joana partirá, Deus apiedado, dissolvendo-a na Natureza que é, afinal, um seu modo divino de ser.
Um livro destes é um excerto de vida que se arranca ao coração. A um indómito coração selvagem.

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