quarta-feira, 15 de junho de 2011

Für Elisa

Extasiei-me e ainda hoje perdura essa torrente de sentimentos ao ler Clarice Lispector, antes de ela ter sido "descoberta" até à náusea por quantos se limitam a dela coleccionar frases quando o que há na sua escrita são extensas e densas narrativas de uma insólita alma errante por um estranho mundo em que, afinal, nos reconhecemos singularmente. Porque é fácil gostar de uma frase sua, já que é difícil ler todo um livro, Clarice é servida como um "shot" numa noite de estúrdia: efeito imediato e alucinante. No resto ninguém a quer; o que nos legou de profundo e de longínquo poucos a acompanham. Segue, morta, mulher solitária no mundo dos sem companhia.
Sucede que eu não conhecia sua irmã, Elisa Lispector. Tive nas mãos um primeiro livro que me limitei a folhear, sabendo que é a história, escrita em 1948, da migração dos Lispector da Ucrânia para a o Brasil, romance auto-biográfico intitulado "No Exílio". Mas foi agora, na cave do alfarrabista Chaminé da Mota que a encontrei de novo, agora no seu livro "O Muro de Pedras", que mereceu o prestigiado prémio José Lins do Rego. Ali estava, amarelecido e escondido na edição da Livraria José Olympio Editora, de 1963.
Se a escrita de Clarice vincava a alma esta não produz menor efeito. Depois de ler é preciso ir «endireitando os sentimentos» como ela diz da sua personagem, «um infinito desejo de trégua e de cessação».
É uma escrita que aleija, como «num pensamento difícil que aos poucos se ia esgaçarçando a esmo, até que a quietude e o cansaço a venciam».

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